LIMA DUARTE, DO PONTO DE VISTA DE UM TÍMIDO – CARNAVAL, 2011

LIMA DUARTE, DO PONTO DE VISTA DE UM TÍMIDO - CARNAVAL, 2011

Com exceção dos próprios tímidos, poucas pessoas no mundo conseguem entender o que é sofrer de timidez. Você que já me viu por ai talvez pense: você, tímido? Sim, muito tímido! A verdadeira timidez tem a ver com um impulso forte – algumas vezes desesperado – de se esconder em um universo particular aonde as pessoas não podem te alcançar nas suas qualidades, e muito menos nas fragilidades. Há no mundo pessoas muito falantes, cheias de piadas, carisma e outros artifícios, mas que na verdade são absurdamente tímidas. Estes são os bons tímidos: usam o que têm de talentos para esconder aquilo que realmente têm dentro de si.

Como dizia, só os tímidos sabem a dor de não conseguir dizer “eu te amo” pra pessoa que você mais ama na vida. Tímidos deixam que o medo do novo e do diferente os paralisem: eles não conseguem convidar a garota de quem estão gostando para pegar um cinema, desistem de eventos sociais porque não conhecem ninguém que estará lá, atravessam a rua por medo de rever alguém com quem não falam há muito tempo, anulam compromissos…

Os tímidos cristãos encontram dificuldades no seu cristianismo: é comum a vergonha e o medo contaminarem a relação com Deus. Tímidos por vezes passam semanas, meses, alguns até anos, lutando contra si mesmo por simplesmente terem medo de confessarem um erro a Deus. Eles relutam, anulam, passam a ignorar o Criador, mas não conseguem expor a sua vergonha e tomar o caminho do arrependimento e do recomeço. É por isso mesmo que, lá em apocalipse, a Bíblia diz que os tímidos não herdarão o reino dos céus: eles dão lugar à culpa, mas não à confissão e ao arrependimento. Ser cristão e tímido é uma luta diária, exige que você supere você mesmo todos os dias e tome o caminho da graça.

E o que tudo isso tem a ver com o carnaval evangelístico em Lima Duarte? Bem, nas pequenas situações desse feriado Deus me capacitou poderosamente a vencer os meus limites de timidez, e por isso mesmo que essa empreitada foi tão marcante!

Foi a mão de Deus que me levou pra Lima Duarte. A viagem de São Paulo foi exaustiva, e quando eu desci naquela cidadezinha, lembrei mais uma vez que eu vinha de semanas seguidas de silêncio e timidez, sem confessar pecados que eu já deveria ter confessado há muito tempo, e sem dar lugar ao recomeço. Tive vontade de me esconder quando vi aquele tanto de gente diferente: me senti deslocado e questionei Deus sobre o porquê de eu ter chegado naquele lugar.

Mas as minhas resistências caíram. A primeira coisa que me marcou foi a singeleza, a comunhão, e o ambiente receptivo das pessoas. Parece bobo, mas estar em um lugar onde você é aceito pelas pessoas sendo você mesmo – sem precisar fazer mais nada – não tem preço! Quebra as resistências de qualquer tímido.

As programações também me marcaram muito. A mais inesquecível de todas foi o evangelismo no carnaval do centro. Quase entrei em pânico quando soube que iríamos lá expor Jesus e a nós mesmos pra pessoas tão diferentes. Relutei dentro de mim, mas acabei indo. “Eu posso pegar poucos folhetos e ficar em um cantinho esperando as outras pessoas acabarem”, pensei.

Chegando lá fui contagiado! Depois de cantar, dançar, pregar, sorrir, entregar folhetos e orar, eu estava com o meu coração alegre por ter superado mais uma barreira de timidez. Antes de dormir naquela noite eu orei a Deus me reconciliando com ele. Agradecendo por saber que o Espírito Santo me chamou pra ter um papel na obra do reino dele, mesmo eu sendo quem eu sou. Orei fazendo mais uma vez o mesmo voto: não importa o quão difícil vai ser vencer a mim mesmo, eu não vou desistir no meio da corrida.

Outras coisas deixaram marcas, daria pra escrever mais muitas páginas: o sorriso das crianças na ação social, a dona Ana Maria do asilo, cheia de sabedoria. A liderança do Thiago, sempre colocando as pessoas nos lugares aonde podem dar o seu melhor pro reino, a mensagem sobre o filho pródigo, as pessoas novas… a sopa de bacon com legumes! Talvez a cena bíblica mais semelhante ao que senti seja aquela em que Jesus reaparece a Pedro quando ele já havia voltado às velhas práticas, marca a vida dele com o mesmo milagre dos primeiros dias, cura-o dos erros do passado e lhe entrega a missão: “tu me amas? Então apascenta as minhas ovelhas!”.

Um abraço, do irmão de São Paulo.

Ricardo Régener


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *